A vida de Maria Boenno pelo historiador Edvan Ramos


Historiador com provas documentais conta a verdadeira história de Maria Boenno

Eu Amo Curitiba (EAC): O que o atraiu para o estudo da biografia de Maria Boenno?

Edvan Ramos (ER): O que me atraiu para fazer todo esse estudo foi a falta de informação histórica que tinha em torno dela aqui em Curitiba. Eu fiz uma visita ao Cemitério Municipal, nessa época eu estava fazendo um trabalho do Comendador Ildefonso Correia, o Barão do Cerro Azul e logo a seguir me chamou a atenção aquela romaria imensa que tinha em torno de um túmulo eu estava a alguns metros de distância. Depois que eu fiz o trabalho do Barão do Cerro Azul eu me dirigi até a sepultura e procurei saber por que tanta romaria e perguntei qual pessoa importante teria sido sepultada no momento. O que me impressionou foi a quantidade de flores, agradecimentos em torno da sepultura, pensei até que fosse alguém de grande importância social de Curitiba. Na realidade era uma senhora que havia sido assassinada há mais de cem anos atrás. Comecei conversar com devotos que me contaram que Maria Boenno era uma Santa, fazia milagres, ela fazia coisas nunca vistas por Santa nenhuma e eu achei uma coisa muito interessante de início é que cada um narrava uma história diferente. A partir daí eu anotei alguns dados, me dirigi a biblioteca pública do Paraná onde cheguei lá e encontrei várias pastas que comentava sobre a Maria Boenno e me deixou muito impressionado ainda é que as informações dentro eram totalmente contraditórias, cada uma apresentava uma versão , uma história diferente. Que ela era virgem, que era casada, inventaram um monte de coisas que nem existiam, a partir daí eu comecei meu estudo, que começou aqui no Paraná. Encontrei uma série de dificuldades, por que em cima deste estudo acabei descobrindo que Maria Buenno tinha sido escrava. Ela era uma pessoa de cor branca não tinha nada haver com a figura que estavam “abotoando” dentro do próprio cemitério que lá mostra uma pessoa branca de olhos azuis e a Maria Boenno que eu realmente estudei não tem olhos azuis e não foi branca, ela foi escrava, nasceu escrava. 

(EAC): Através deste estudo o que o senhor descobriu sobre a escravidão no Paraná?

(ER): A parte de pessoas de cor da escravidão do Paraná, muitas coisas eu senti que foram criminosamente destruídas, até para encobrir a importância da população negra no Paraná. Basta dizer que grande parte das construções civis aqui do Paraná eram constituídas por pessoas de cor, principalmente aquelas partes de maior risco. Os trabalhos de cozinha, trabalhos pesados de uma maneira geral, ligado a limpeza pública, iluminação, tudo isso eram feitos por mãos de ex-escravos que depois da libertação da escravidão passaram a lutar de uma maneira profissional para sobreviver e isso tudo aconteceu graças um ex-escravo também que fundou a Sociedade Operária Beneficente 13 de Maio. A 13 de Maio que se tornou a casa das pessoas de cor aqui de Curitiba, não só daqui como de todos os lugares do Brasil. Muito vieram se agregar aqui no Paraná por que sabiam que aqui teriam emprego, plano de saúde, tudo isso desenvolvido por esse senhor Vicente Moreira de Freitas. E acabei descobrindo que a Maria Buenno tinha vínculos com a Treze de Maio, cheguei a ir lá deixei o pessoal extremamente confuso ela estava totalmente  em decadência. Eu fui levado a ela através de anotações que eu tinha feito. O pessoal me recebeu bem, mas desconfiados por que eles não sabiam que Maria Boenno tinha participado da 13 de Maio e eu até  entendi por que na época a mulher não tinha representatividade nenhuma,  e eu estou falando de 1893 nessa época a função da mulher era reproduzir, cuidar da casa e ficava restrito exclusivamente a isso. A partir da Treze de Maio acabei descobrindo que ela fazia parte da irmandade Nossa Sra da Conceição e São Benedito dos Homens Pretos de Curitiba, essa irmandade também foi extinta para mim de forma criminosa por que, o que tinha de documentos desta irmandade destruiram, apagaram. Apagaram a imagem dela, apagaram a imagem do senhor Vicente Moreira de Freitas, que para mim foi o pioneiro da assistência social no Brasil. Enfim, tentaram nesses mais de um século falar somente de uma pessoa marginal eu não achei nenhum dado que ela tenha sido marginal, prostituta ou alguma coisa perigosa ao próprio meio, basta dizer  que no laudo do IML na época que já existia, não constatou nada que abonasse a conduta dela.

(EAC): De tudo o que foi levantado o que foi comprovado no seu estudo?

(ER): Na realidade eu fui levado a começar o estudo a partir da dúvida dentro do próprio cemitério, por que cada um contava uma história diferente. Falaram que ela era virgem, não era. Falaram era branca, não era. Falaram que ela tinha os olhos azuis, que estava prometida para não sei quem, falaram que ela era cortesã, não era. Eu levantei o arquivo das prostitutas antigas de Curitiba não consta o nome dela em nada. E sempre retrataram ela levando para o lado marginal da coisa. Uns falam que era um pobre coitada, outros falam um monte de coisas que não tem nada haver. Falaram que foi um soldado da Polícia Militar matou, na época nem existia a Polícia Militar era Regimento de Segurança. A Maria Boenno depois de 13 Maio de 1888 ela como um monte de escravas aqui no Paraná para sobreviver tiveram que assumir o lado profissional dela, o que ela sabia fazer era lavar roupas. Ela fazia parte de um grupo de lavadeiras que pertencia a Rua da Misericórdia que hoje é a Rua André de Barros. Ficava um grupo ali que lavava roupas nessa época na Praça Carlos Gomes e depois surgiu um grupo na Rua Saldanha Marinho. Esse da Rua Saldanha Marinho o pessoal lavava roupa onde a Maria Boenno foi assassinada, é a Rua Visconde do Rio Branco com a Rua Vicente Machado ali na esquina era um lago imenso alimentado por um rio que passa por baixo da rua, eles desviaram até o rio. A cidade de uma maneira tal cresceu tanto que muitas coisas foram geograficamente modificadas.

(EAC): Há quantos anos vem sendo feito esse estudo para publicação da obra?

(ER): São 32 anos de trabalho, é aquele negócio foram 32 anos interrompidos por que eu tenho outras atividades. Muitas coisas passaram acontecer de forma estranha na minha vida, coisas boas. O trabalho eu comecei aqui e fui terminar no Rio de Janeiro no arquivo nacional, por que nada se perde lá. Antigamente as províncias eram obrigadas tudo que faziam aqui mandavam para o arquivo nacional no RJ. Aqui destruíram tudo.

(EAC): Como funciona para ter acesso a esses dados?

(ER): São dados restritos, desde de 1972 eu faço pesquisas históricas desde a minha época de colégio militar. Eu acabei criando uma amizade tão grande no arquivo e na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro que tudo que eu pedia eles conseguiam para mim. Hoje se torna mais difícil por que até a própria mão de obra deles é desqualificada. Eles colocam pequeno aprendiz para ir procurar documentos históricos uma coisa que dificulta muito é um desenvolvimento histórico de qualquer historiador que venha fazer no Brasil. Antigamente tinha pessoas mais especializadas a partir daí eu criei uma grande amizade por que não só o trabalho da Maria Boenno como outros trabalhos eu passei a desenvolver também. Eu tinha mesa exclusiva, tudo que eu pedia ele me enviavam cópia, coisa que era proibida, recebi a ajuda do Instituto Histórico do RJ. Foi um trabalho que foi montado em cima de dados oficiais que desmente tudo isso que as pessoas falam sobre essa figura de Maria Boenno. É uma figura que seja branca, amarela, preta, seja lá o que for ela continua fazendo uma “mágica” que todo mundo agradece. Basta dizer que se tiver alguma dúvida é só se dirigir ao Cemitério Municipal que você vai ver um monte de placas, eu acredito que ninguém tenha colocada aquele montão de placas lá só para dizer que existe. São placas de agradecimentos de várias formas de doença, amor, compra de casa, de tudo que você imaginar. Faz mais 10 anos que eu não vou lá, me comentaram que o número de placas avançou no muro e eu achei interessante. Depois desse tempo todo de trabalho eu pretendia lançar essa obra, tenho promessas já participei de vários almoços, churrascos, jantares, tapa nas costas e na hora de financiar, nada!

(EAC): Onde nasceu a Maria Boenno?

(ER): Ela nasceu em Morretes, eu tenho a certidão de batismo dela e a certidão de óbito também. Ela não era virgem, tinha mais de 30 anos isso consta no próprio documento. A melhor forma de se fazer um trabalho é com documentos, com documentos ninguém tem o que contestar. Já vi, ouvi entrevistas de pessoas de renome no Paraná dizendo que era descendente de Maria Boenno, só que eu conversei com essas pessoas e pedi provas e ninguém conseguiu me apresentar nada. Inclusive mostraram as histórias que não tinham nada haver com as histórias que eu descobri.

(EAC): Nos conte algumas curiosidades durante o processo de pesquisa.

(ER): Teve um coronel da Polícia Militar do Paraná, eu não sei como ele descobriu meu telefone se dizendo aliviado por saber depois de vários anos que Maria Boenno não tinha sido assassinada por um soldado da Polícia Militar e sim por um soldado do exército. Outra coisa que achei interessante é que lá em Foz do Iguaçu os devotos conhecem ela como a protetora dos sacoleiros, já os policiais civis e militares do Paraná consideram ela como padroeira deles, inclusive eu conheci vários soldados da polícia civis que eles tem ela como protetora deles. Ela é protetora em duas vertentes totalmente diferentes. Mas o que eu achei estranho foi essa curiosidade de receber emails de pessoas dizendo que ela protege muito os sacoleiros que vão no Paraguai. E quando passa com as muambas deles “dá um branco” nos policiais que eles não enxergam nada (rs).