No site da prefeitura encontramos que em 29 de março de 1693, o capitão-povoador Matheus Martins Leme, ao coroar os “apelos de paz, quietação e bem comum do povo”, promoveu a primeira eleição para a Câmara de Vereadores e a instalação da Vila, como exigiam as Ordenações Portuguesas. Estava fundada a Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, depois Curitiba.

O texto a seguir foi escrito por Romário Martins e publicado em 1986 num Boletim do Arquivo do Paraná, ano X, número 19, nas páginas 29 e 30. O texto relata o que teria sido o primeiro dia da vila.

“No páteo de pau a pique coberto de palmas de butiazeiro, iam apeando cavaleiros vindos de todas as direções. Descia gente de todas as direções, de sítios e curraes e guapiara do Barigui, Passaúna, Botiatuva, Cajuru, Uberaba, Juvevê, Xaxim, Bacaetava, Capiara, Capitu, Timbu, Boicininga, Tapirussu, Canguiri, Atuba, Bacacheri, Tinguicoera. “Homens bons” de terra, “gente de sã consciência” com seu séquito de índios; mineiros e tropeiros; portugueses e hespanoes; mamelucos e gaúchos; gente alçada, semibárbara, rastolho de bandeiras dissolvidas na selva, “sem temor de Deus e d’El Rei”. No páteo da capela, choupanas dispersas sem ordem, com cercas de caiçara fechando glebas aquintaladas ladeavam, tapuís de tinguis pacíficos.
Em torno de um pinheiro secular confabulava, os políadas fundadores: Antônio da Costa Velozo, Garcia Rodrigues, o velho, Agostinho de Figueiredo, Baltazar e Gaspar Carrasco dos Reis, Manoel Soares, os Leme, Quevedo, Seixas, Luís de Goes. E vinha chegando gente. Nas casatingas dispersas do chapadão gramado, andava o labor preparatório das comezainas festivas. Garotos corriam na praça, na pega dos leitões que seriam sacrificados. Nos quintais os fornos improvisados abriam a boca vermelha do fogo vivo; e a sombra dos capões adjacentes a gaúcha que carneava a rez que seria churrasco dahi a pouco. Do lado do Barigui se erguia a poeira que o sol doirava, de uma cavalgada. Antônio Velozo a indicava com o arreados de prata, aos companheiros. Era o Capitão Povoador Mateus Martins Leme, com sua escolta de índios, que vinha deferir a petição popular que pedira a creação da Vila, para o “serviço de Sua Majestade”, para a “paz, quietude e bem do povo”, para a “repressão dos maus elementos”, para “se porem as coisas em bom caminho”.
Rodeavam-no, a sua chegada, os “homens bons”com respeitosas mesuras. As janelas e as portas dos casebres próximos surgiam em mulheres alvas e bronzeadas curiosas todas, limpando no avental as mãos cobertas de sequilhos, das broinhas e do pão de rolão.
Uma roqueira estronda um tiro, no alto da coxilha de São Francisco. Mateus Leme apeia junto ao pinheiro centenário, e se dirige para a capela. A roqueira da coxilha explode de novo. Gritos bárbaros estrondam num furioso entusiasmo, debandando a periquitada que tagarelava nas gabirobeiras.
Junto ao tosco altar onde uma estampa representando N. S. Da Luz e outra o S. Bom Jesus assinalavam a assistência divina, se posta o Capitão Povoados, já alquebrado pelos anos, cofiando as longas barbas de linho, à espera que façam silêncio as espadas e as chinelas estrepitosas dos que vão entrando.
A um gesto, pousado e grave, João Seixas, lê a petição e o despacho. Na forma das ordenações, o Capitão declara, finda a leitura: “Elejam seis eleitores”.
São eleitos Agostinho Figueiredo, Garcia Rodrigues, Luís de Góes, Gaspar Carrasco dos Reis, Paulo da Costa Leme.
Com as mesmas formalidades, João Seixas recolhe os “pelouros” (cédulas) e Mateus Leme declara eleitos:
Juízes – Antônio da Costa Velozo e Manoel Soares; Vereadores – Garcia Rodrigues, o velho, Capitão José Pereira Quevedo, Antônio das Reis Cavalheiro; Procurador do Conselho – Capitão Aleixo Leme Cabral; Escrivão – João Rodrigues Seixas.
Está constituída a Vila de N. S. da Luz e Bom Jesus dos Pinhais.
Saúdam-na no alvoroço os povoadores dos campos curitibanos erguendo preces a Deus e vivas a El-Rei. Saúdam-na todas essas almas então perdidas no altiplano de Curitiba, onde a terra era de ninguém e onde a cada passo a garra da fera, a flecha do caingangue e as competições dos aventureiros, desfaziam uma vida temerária.”

Posso caminhar mil vezes por esses lugares do mosaico e nunca enjoar. Nessas paisagens sempre vou me sentir em casa e parte dessa cidade que aprendi a amar desde o dia que aqui cheguei. Feliz aniversário Curitiba. Eu amo Curitiba!