BERGMAN: 100 ANOS. Para os fortes!!!


Jane Magnusson exalta o artista, que nem precisa de maiores reverências; mas a platéia se assusta.

Ninguém discute que Ingmar Bergman foi grandioso, se pensarmos no tempo; e mais grandioso ainda, se pensarmos na arte e na eternidade. Não há ser humano apaixonado pelo cinema que não o tenha no mais alto dos postos e não se curve, adorador, diante de obras como “Morangos Silvestres”, “O Sétimo Selo”, “Persona” ou “Sonata de Outono”, só para citar alguns de seus maiores filmes.

Bergman foi tudo, e mais ainda, um dos maiores diretores de teatro que a Suécia conheceu. Então que a crítica e jornalista Jane Magnusson, faz um documentário que comemora os seus 100 anos. Bergman nasceu em 1918. Sim, o saldo é dourado e, no final das contas, termina reforçando o fato de que Bergman era um revolucionário, um dos artistas mais influentes e reverenciados do século 20 e um gênio indiscutível. Mas… E sempre tem um “mas”… Era também cruel, difícil, vaidoso, sujeito a ataques de fúria, vingativo, destruidor e ainda por cima, traia suas mulheres com todas as atrizes com quem trabalhava. Houve época em que além da esposa matriz, colecionava cinco amantes ao mesmo tempo. E ainda dava conta de dirigir peças para teatro, televisão, e dois filmes para cinema. Tudo ao mesmo tempo. Enquanto atores se estapeavam para trabalhar com ele, seus rompantes de ego e capricho reduzia-os a pó sem dó nem piedade. E na ju

ventude, ainda por cima, flertou abertamente com Hitler.

Jane Magnusson é impiedosa ao colher depoimentos devastadores, mas, claro, se preocupa em equilibrar com outros que amenizam o homem e engrandecem o artista. Como o depoimento de Liv Ullman, que, lágrimas nos olhos, declara seu amor ao grande amigo. Ao recuperar para a posteridade o homem, Magnusson exalta o artista, que nem precisa de maiores reverências; mas a platéia se assusta. Difícil imaginar tantas características negativas num ídolo que construiu uma obra tão sublime. Mas como diria um velho humorista: “Assim como são as pessoas, são os seres humanos!” E, se de um lado nos identificamos com sua face mais humana, continuamos nos curvando diante de sua obra que fica maior a cada ano.

Bergman tem uma obra radicalmente pessoal e feita no detalhe, como um artesão de primeira linha. Um escultor do tempo, como ensinou Tarkovski. BERGMAN: 100 ANOS, choca, de verdade e quase crava uma faca em nosso coração apaixonado, que muitas vezes sangra durante a projeção. Mas, depois que as luzes se acendem, voltamos pra casa com o close de Victor Sjostrom em “Morangos Silvestres”, aquele que Bergman considera seu plano mais sublime. E as perguntas: Por que Bibi Anderson e Max Von Sidow não dão nenhum depoimento? E o que Barbra Streisand está fazendo lá? Mas… Viva Ingmar Bergman! E segue a vida. Ah! O documentário foi exibido em uma única sessão no Itaú do Shopping Cristal, num sábado às 21 horas. Talvez apareça por aqui de novo. É imperdível para quem ama o cinema. E para, para quem sabe quem é Ingmar Bergman!