Roma, de Alfonso Cuarón, uma pequena jóia esculpida pela delicadeza


É uma história sem grandes arroubos ou choques, mas que nos surpreende justamente porque quebra a nossa expectativa, digamos assim, aristotélica

Alfonso Cuarón filma os contrastes entre as banalidades da vida e os acontecimentos definitivos com cuidadoso apuro visual. Mais do que um espelho, a arte é um véu, então que para assistir ROMA, o novo filme de Alfonso Cuarón, é preciso estar com um olho na vida e o outro na arte.

Ao filmar a história de uma delicada empregada doméstica em uma família de classe média mexicana na década de 70, Cuarón senta na cadeira de diretor e observa cada mínimo acontecimento do recorte que faz do tempo, com um olhar de observador, que perscruta o passado como se observasse o presente. Os acontecimentos estão na memória, mas o filme acontece aqui e agora. É uma história sem grandes arroubos ou choques, mas que nos surpreende justamente porque quebra a nossa expectativa, digamos assim, aristotélica, da necessidade de conflitos e ações.

Há sequências inteiras onde a banalidade chega a incomodar e o anti-clímax parece dar as cartas num vórtice de coisa nenhuma que parece condenar o filme ao fracasso. Mas então, que o mestre Alfonso Cuarón nos presenteia com uma ou outra sequência de puro cinema e o choque visual é tão forte que o banal se transforma no inesquecível.

De uma história simples, humana e delicada, Cuarón nos oferece uma verdadeira aula de cinema, com um apuro visual como poucas vezes o cinema tem nos oferecido nos últimos tempos e planos e sequências que só um profundo conhecedor da sua arte consegue elaborar. É elaboração que não acaba mais! São pequenos e grandes detalhes, que formam um mosaico humano caloroso e suave. Cuarón parece ver tudo à distância, mas tem um carinho enorme por seus personagens e suas histórias nada épicas. A vida de qualquer um de nós pode parecer banal por fora, mas é imensa e muito cinematográfica por dentro.

ROMA é o filme mítico do ano, sem dúvida. Pode não agradar todo mundo, o que é normal; mas é daquelas pequenas jóias que a delicadeza esculpe e que garantem seu lugar na história do cinema. Queria tê-lo visto na tela grande, porque aí a experiência teria sido arrebatadora. Apesar do banal.