Um garoto apagado – a realidade é assustadora


Boy Erased é um libelo, um grito de revolta contra a insanidade que persiste em pleno século 21

Foto Divulgação

E mesmo que a ficção, apoiada em fatos verídicos, tente contá-la, ela, com certeza é muito mais tenebrosa. Boy Erased conta a história de Jared Eamons, homossexual, enviado pelos pais evangélicos (Nicole Kidman e Russel Crowe), a um centro de terapia de conversão. Pela convicção familiar e religiosa, o garoto teria que retornar à condição heterossexual, já que a homossexualidade é, segundo eles, uma perversão, uma opção de caráter, e não uma condição natural de vida. No tal centro, o adolescente Jared é exposto às mais inacreditáveis torturas psicológicas, protagonizadas por um verdadeiro demente obsessivo, vivido por Joel Edgerton, também o diretor do filme. É um calvário e castração é a palavra de ordem.

A insanidade é uma praga e a criatura humana, dominada por suas fragilidades e ignorâncias, é capaz de atitudes de fazer inveja ao pior torturador medieval. Pois Boy Erased é um libelo, um grito de revolta contra a tal insanidade que persiste em pleno século 21.

O filme? Bem… Joel Edgerton faz um cinema racional, onde não há muito espaço para a poesia e para a arte. É seco e direto. Seu objetivo didático é tão focado que deixa pouco espaço para o cinematográfico. Então que falta a Boy Erased aquela faísca que faz você levantar-se da poltrona e sentir vontade de gritar, ou chorar, ou até tacar fogo do mundo. É um belo e importante filme, porque trata de um tema que precisa ser discutido e apontado a cada dia, embora sua racionalidade limitadora.

Os seres humanos são livres e liberdade é um valor que se defende, nunca se questiona ou limita. Mas, se acreditasse um pouco mais na poesia e no cinema, Boy Erased seria bem mais do que um quase manual de sobrevivência em meio à barbárie.