O que é o tal do movimento Fashion Revolution, que todo mundo andou falando essa semana? Começando há 5 anos e atuando agora em mais de 90 países, a mobilização teve um gatilho bem pesado: no dia 24 de abril de 2013, o edifício Rana Plaza, em Bangladesh, desabou e deixou 1133 mortos, sendo cerca de 80% mulheres, todos empregados da indústria têxtil e que foram obrigados a continuar trabalhando mesmo depois de alertas sobre o perigo na estrutura do prédio.

Com isso, em meio à falta da devida importância por parte da mídia em relação à tragédia, organizações ao redor do mundo todo se sensibilizaram para conscientizar e colocar no meio da gente a questão: quem fez suas roupas?

Unida a toda essa galera, nessa última semana Curitiba foi palco de vários debates, palestras e oficinas sobre a conscientização da moda sustentável e do chamado slow fashion. E eu marquei presença em um desses eventos, o que mais casa com a proposta do nosso Rolê: “Da moda autoral ao brechó – quem fez suas roupas?”, a roda de conversa que uniu o projeto Diálogos em Design, da Universidade Positivo, com a Fashion Revolution.

O debate teve mediação da professora Menita Menezes, e organização do professor Hélcio Fabri, e reuniu três marcas curitibanas, cada uma com sua vertente do slow fashion:

Foto: Ana Paula Hudzinski

– H-AL (que já apareceu aqui no Rolê), com Alexandre Linhares e Thifany F. : marca autoral, que define suas peças como obras de arte vestíveis, todas únicas e pensadas em cima de um tema e personagem.

A marca questiona a sujeição ao suprimento da indústria têxtil, em que nos vemos caindo a todo momento. Alexandre e Thifany mostraram coleções e um vídeo performance sobre esse tema. Dentro disso, colocam outras questões em pauta: a máquina/indústria contra o ser humano, e as posturas que tomamos em relação a isso (“quantas pessoas perdem para que outras possam ganhar?”). Por fim, a H-AL surge como uma alternativa, em que os consumidores vêem todos os processos que acontecem até o uso da roupa propriamente dito.

Foto: Ana Paula Hudzinski

– Album Hits, com Gabi Duarte (mestra em Moda, Cultura e Arte, com pesquisa voltada à Moda, Corpo e Sociedade): loja multimarcas de moda de rua e sweatshopfree;

O foco da loja sempre foi voltado para o streetwear, utilizando de uma curadoria com essa pegada urbana. Muitas vezes quando comprava suas roupas, Gabi questionava os vendedores sobre a origem das peças e tecidos, e em alguns momentos acabava se deparando com a China. “Comecei a comparar a diferença de quando eu ia numa feira, por exemplo, em uma cidade tão grande quanto Nova York, ou mesmo lá, e achava pessoas fazendo uma produção local. (…) Eu não vou mais comprar nada que eu não saiba a procedência”. Ela debateu também sobre o lado social da moda, e sobre seu olhar de pesquisadora em meio à questão da sustentabilidade da moda, selecionando e valorizando os trabalhos de uma forma ética.

Foto: Ana Paula Hudzinski

– Balaio de Gato, com Lia Perini e Ju Araújo: brechó de roupas usadas e peças próprias construídas dentro das premissas do upcycling.

O brechó teve um longo caminho até chegar onde está hoje, mas toda essa jornada serviu e muito para as bandeiras que a loja carrega. “O Balaio de Gato surgiu de uma oportunidade de negócio. Eu e minha irmã sempre gostamos de brechó, e eu moro no centro da cidade, no meio de cinco brechós. (…) Eu queria tanto um brechó organizado, um brechó limpo, com uma curadoria melhor. Um dia, indo trabalhar, passamos na frente de um brechó: ‘vende-se’. (…) Vinte dias depois, a gente estava com a chave da loja na mão.”, conta Lia. Além de brechó, o Balaio de Gato reúne algumas marcas como Puta Peita e Gasp, e tem diversas propostas socialmente engajadas e ligadas ao slow fashion: uma Colab (loja colaborativa, que reúne pessoas de Curitiba que trabalham sustentavelmente), uma marca autoral chamada DuBalaio (com peças desenhadas e produzidas pelo Jú Araújo, feitas para venda e sob encomenda, com colaboração do comércio local), e o Balaio Solidário (arrecadação de brinquedos novos e usados para comunidades quilombolas).

Ao longo de toooda essa conversa, os convidados foram questionados sobre algumas pautas, entre elas, a relação entre moda, corpo e feminismo no movimento do slow fashion. “Nesses últimos anos, ao mesmo tempo que vem a liberdade, vem a repressão, quanto mais liberdade, mais repressão”, disse Thifany. Jú, do Balaio, falou sobre a liberdade de expressão no seu próprio corpo, “agora eu encaro mais como um ato político, isso de eu usar vestido, porque acho que dessa maneira a gente consegue romper com a diferença entre o masculino e o feminino, e desenvolvemos criativamente a moda”. E a Gabi comentou sobre as libertações das mulheres em relação à nova moda, como nós temos a maior liberdade de mostrar o corpo, e sobre o movimento de moda conceitual e política.

E, pra completar, termino com as falas do Alexandre e da Thifany sobre o modismo da sustentabilidade:

“Eu acho que a gente tem que aproveitar o momento pra usar esse modismo para conscientizar de fato e conseguir modificar pensamentos. (…) No momento, a preocupação ecológica tá na moda sim. E que bom que tá na moda, e que continue na moda por bastante tempo”.

– Alexandre

“Eu comecei a pensar muito sobre a minha motivação. Eu vejo esse ponto de que está na moda, e que é super legal ser sustentável. É tipo quem não come carne na frente dos outros mas escondido come, sabe? É muita hipocrisia nesse ponto. Mas aí eu comecei a ver: vamos pegar essa vertente, vamos chegar então onde é o ponto inicial. Mas a gente tem que tomar muito cuidado, porque daqui a pouco tá todo mundo mandando pra Bangladesh fazer isso. Então calma, vamos fazer as coisas com consciência. Eu acho que é mais conscientizar as indústrias sobre como a gente pode fazer com que essa sustentabilidade seja real e que atinja de uma maneira financeira. (…) A gente pode pegar essa moda como um objeto de estudo para todos nós e fazer isso acontecer, não deixar ser só momentâneo.”

– Thifany.

Então, a dica do Rolê da Moda hoje é olhar para suas etiquetas e se perguntar: quem fez suas roupas? A gente sabe que não é fácil mudar (eu, por exemplo, sou a louca da roupa barata), mas aos poucos os hábitos podem ir se transformando. Os convidados deram a dica de começar essa prática nos brechós mesmo, que são uma alternativa mais sustentável do que comprar em marcas sem transparência, e que não atinge tanto o bolso quanto uma marca autoral por exemplo. E assim, a gente começa a dar o devido valor às nossas roupas, e percebe que, pra elas chegarem às nossas mãos, muita gente teve que se prejudicar. É um passo de cada vez, mas é uma revolução diária.

Foto: Ana Paula Hudzinski