Pra mergulhar ainda mais nesse negócio de moda das ruas, principalmente em Curitiba, é legal entender também um pouco da visão dos artistas e designers de moda da própria cidade. E, nesse último dia 08, eu fui beber diretinho da fonte, no evento Trama Curitibana, que aconteceu nos dias 06, 07 e 08 de abril, no Hostel Matilda.

Foto de acervo do grupo.

A ideia da Trama é unir marcas de roupa e acessórios com um mesmo desejo: o de fazer moda mais do que peças de roupa, mas sim um manifesto de ideais, e mostrar isso tudo ao público, de uma forma bem descontraída e totalmente aberta.

As cinco marcas são autorais, autênticas curitibanas (algumas já estão fora de Curitiba também), de jovens e independentes designers, que acreditam na importância da singularidade e durabilidade da roupa. Afinal, quando você tem consciência do que você compra, o valor daquilo aumenta mil vezes, sem dúvida.

Mas chega de eu ficar tentando explicar. Melhor a gente ouvir (ou ler?) direto dos criadores dessas marcas, que eu entrevistei durante o evento. Bora?

PINE AX

“A Pine é uma marca de bolsas, a gente utiliza couro de animais de pequenos produtores aqui do Paraná, e é feito de forma artesanal. As bolsas são todas atemporais, a gente usa cores que são feitas pra durar e pra combinar com qualquer coisa. Se você troca de roupa, você não precisa necessariamente trocar de bolsa.

Elas são todas de couro, muito resistentes, e são para durar, no conceito de slow fashion, que é o que a gente acredita: consumir menos e com mais qualidade. A maior preocupação é isso, a matéria-prima e a confecção de qualidade.

A nossa confecção é toda artesanal, com uma técnica de encadernamento que está quase extinta, na verdade.”

– Juliane, criadora da Pine Ax.

www.facebook.com/PineAxStudio/

@pineax_leathergoods

www.pineax.com

H-AL

“A gente trabalha essencialmente com reaproveitamento de tecido, a gente usa a peça como suporte de expressão, que por acaso é possível de ser vestido, mas as peças carregam bandeiras.

Estamos fazendo 10 anos de marca, fizemos o figurino da Elza Soares, da Mulher do Fim do Mundo. Essa coleção (a exposta no evento) se chama Poesia Desilusória.

Eu venho das Artes Plásticas, fiz Design de Produto, e eu estava trabalhando na loja de uma amiga só de roupa feminina. Aí eu comecei a pintar umas peças para eu usar, bordar alguma coisa, e as clientes da loja perguntavam de quem era aquela roupa, se tinha para vender. Então eu comecei a fazer para essas mulheres, foi assim que começou.

Eu fiz especialização em Ecodesign, e vi que o ponto em que eu pecava na roupa era a origem do tecido, porque a gente fica refém do mercado têxtil. Então a gente começou a reaproveitar o resíduo de outros ateliês, para não deixar aquilo ir para o lixo, porque são tecidos que demoram entre 300 e 500 anos para se decompor, então não geramos esse impacto na natureza. A gente usa tudo do tecido, quando não dá mais pra costurar, ele vira enchimento de almofada e de bonecas.

As peças são feitas uma a uma, são todas peças únicas. A gente começa uma coleção elegendo quem é o rosto que vai representar aquela coleção. A partir disso, a gente começa a desenvolver as peças, em cima da pessoa. A Katia Horn, que é a artista homenageada do evento, foi modelo da nossa coleção.”

– Alexandre, criador da H-AL.

“A gente trabalha com a roupa, que é uma consequência de todo um processo artístico anterior, que vem de vídeo, produção de texto, performance, e disso a roupa é o único produto que a gente consegue vender. Então existem muitas histórias antes disso se transformar em peça de roupa.

Ela é peça de roupa por acaso também, pode ser usada como uma tela. A gente usa camisetas, vestidos, como um processo artístico de expressão.

Trabalhamos apenas com peça única, porque como é esse processo todo de reaproveitamento de resíduo não temos como seria-lo, porque não faz sentido. Usamos todos os tipos de material, desde pano de chão até seda pura, realmente trabalhamos com o que temos na mão. Usamos tingimentos, o Alexandre explora muito a pintura, tanto abstratas quanto identificáveis.

Hoje estamos falando muito sobre poesia, de alguma maneira tentando se desligar um pouco de tanta violência, tanto ódio, queremos puxar para o outro lado. Instigamos esse pensamento de tirar o que tem de bom nas coisas. Nosso processo também é pesado, estamos sempre tendo que lidar com essas questões.

Hoje para o Trama, eu lancei uma linha de peças infantis, em que eu faço uma pesquisa de como passar filosofia para crianças. Eu acredito muito nas crianças, e em deixar alguma coisa para elas. É a partir delas que a transformação vai acontecer.”

– Thifany, co-designer da H-AL, que trabalha com as peças infantis. Na foto, ela usa uma peça da coleção Santas Chorando Sangue.

www.facebook.com/hal.alexandrelinhares/

@halartetextil

www.h-al.com/

JACU

“A Jacu tem 3 anos e meio, e a ideia da marca foi questionar um pouco sobre como o brasileiro vê e consome moda, porque as nossas referências (dos brasileiros) vêm muito de fora, e a gente deixa um pouco de lado o que constrói a nossa personalidade, a nossa estética. E até por isso o nome da marca: vamos abraçar a ideia do ‘ser jacu’, a gente é jacu! A gente é do interior, a gente é de um país que às vezes não produz muita coisa com valor agregado. Então pegar isso que nós temos de referência, que é muito rico, e transformar isso em um produto de moda, essa é a ideia da marca: trabalhar com o que nos cerca mesmo, não beber de referências externas

Se você vai se inspirar na moda francesa pra transformar aquilo em um produto e tentar colocar aquilo de volta no mercado: que serviço você está fazendo com isso? Então a ideia é realmente pegar aquilo que nos é verdadeiro, de trazer essa verdade do que é próximo à gente. Esse é o ponto de partida da marca, que é feita com estamparias de artistas locais.”

– Ed Medeiros, criador da Jacu.

www.facebook.com/jacubr/

@jacubr

www.jacustore.com.br/

REPTILIA

Foto de acervo pessoal.

“A Reptilia começou em 2013, ela sempre esteve inserida nesse movimento de slow fashion: a gente trabalha na contramão da indústria massificada. A gente escolhe matéria-prima brasileira certificada.

Eu faço uma pesquisa tecnológica, que é uma das marcas registradas da Reptilia hoje. Então a gente tem tecidos com funções que ultrapassam a estética e a informação de moda. Por exemplo, tem um fio que a gente usa, o fio Emana, que devolve o calor para o seu corpo e trabalha a circulação sanguínea. É uma série de requisitos que os tecidos precisam ter para entrar na nossa coleção, a gente trabalha com fibras naturais, viscose, linho, seda feita à mão, que é feita a partir também de resíduos da grande indústria. Então a gente tem uma série de ações que nos encaixam dentro desse movimento.

O processo começa sempre de uma pesquisa de materiais, então a gente trabalha no nosso universo criativo local. A gente começa pela escolha de materiais, e depois a gente parte para os desenhos.

E aí a gente desenvolve todas as peças lá no ateliê, que fica junto com a loja, sem nada terceirizado. Isso porque a indústria têxtil é a segunda que mais escraviza no mundo, por causa do excesso de terceirização. Aqui você conhece a roupa, sabe como foi feita, onde foi feita. Isso, além de evitar coisas óbvias como o trabalho escravo, trabalha também com o afeto da pessoa que está comprando a peça. Se você sabe como ela foi feita você cria essa relação de afeto, você vai cuidar.

É essa a tríade do slow fashion e da moda consciente: escolha melhor, compre menos, e faça durar.

Além da pesquisa tecnológica, a gente trabalha muito com o artesanal. Por exemplo, os tingimentos, nós trabalhamos eles com tinta natural e artesanal. A gente não trabalha com grandes estoques, por ter o ateliê a gente trabalha muito sob demanda, e com pequenos lançamentos.

Então a gente vai girando essa economia local, trabalhando com parcerias e fazendo isso acontecer no cenário curitibano.”

– Helo, criadora da Reptilia.

www.facebook.com/blog.reptilia/

@_reptilia

www.reptilia.name/

BRUNA BOMFIM

“Eu trabalho muito com a experimentação e com o próprio material. Eu trabalho com a prata, e todas as peças eu vou executando e criando ao mesmo tempo, sem desenhar antes. Eu lamino e faço todo o processo, desde derreter a prata até laminar, e é torcendo o próprio metal que eu vou dando as configurações. Então eu vou filtrando o que dá certo e o que não dá, e vou derivando as peças.

A partir de uma técnica eu vou para outra peça, trabalhando com linhas, não coleções. São linhas permanentes, até porque eu tenho um propósito de que a jóia é uma coisa que dura para a vida toda, então não é uma tendência que você vai usar agora e depois vai sair de moda. É uma coisa pra você usar pra sempre, porque se você tem esse cuidado com a jóia ela pode durar por muito tempo.

Eu trabalho com ouro também, algumas peças misturam prata com ouro, e também tem essa questão da experimentação, com técnicas que eu aprendo fazendo mesmo.

A marca surgiu em 2015, sem ser planejada, eu acabei só criando e nem tinha produção, eu estava aprendendo. É mais no último ano que eu estou realmente atuando e vendendo mesmo, estando em eventos.”

– Bruna, criadora da Bruna Bomfim.

www.facebook.com/brunabomfimdesigndejoias/

@brunabomfim___

www.brunabomfim.com.br/

Resumindo: foi incrível, eu espero ver muito mais dessa galera da Trama pelos meus rolês, e super recomendo conhecer essas marcas curitibanas maravilhosas e puramente autênticas.