A Casa que Lars Construiu


O último filme de um dos mais polêmicos e aclamados diretores da atualidade choca pela violência e traz ainda mais controvérsia a construção da imagem de Lars Von Trier.

Fui assistir a estréia de A Casa que Jack Construiu na semana passada, no Cineplex Batel. Pra quem se interessa, o novo, e sempre polêmico, filme de Lars Von Trier só está passando nesse cinema e no Espaço Itaú de Cinema em Curitiba.
Eu sou muito ruim com datas, então não lembrava que o filme ia estrear esse mês. Um abençoado comentou em um grupo de whatsapp que eu participo e eu fiquei em absoluto desespero, faltei metade de uma aula pra ir ver o filme em primeira mão e quase briguei com a atendente pelo telefone porque queria que ela reservasse um ingresso pra mim, já que não dava pra comprar online. Cheguei na sessão e contando comigo devia ter umas 12 pessoas. Claro que eu tinha que pagar de louca a toa né, senão não era eu. No fim da sessão eram 3 pessoas. Uma boa parte saiu durante a primeira meia hora do filme, muito antes das coisas mais terríveis começarem a acontecer.

Vocês querem saber se eu recomendo? Olha, depende. Você viu todos ou quase todos os filmes do Lars Von Trier? Acompanha as polêmicas nas quais ele se mete diariamente, desde a fala de brincadeirinha em Cannes se auto declarando nazista até o ódio vitalício que Bjork nutre pelo homem por ele ter sido machista com ela? Esse não é um filme para quem está iniciando sua jornada larsvontriística, em definitivo. É necessário ter alguma pista sobre o que te aguarda na casa sombria construída pelo diretor dinamarquês. Por outro lado, sabendo desses e outros detalhes, você vai perceber que o filme é quase autobiográfico.

Jack, interpretado por Matt Dillon
“Mas Ina, o filme não é sobre um psicopata atormentado se gabando de assassinatos frios e calculistas?” É sim. “Então quer dizer que Lars Von Trier é um serial killer confesso?” Acho que não. Mas eu não li os últimos noticiários e não coloco minha mão no fogo.
O filme não é tão autobiográfico assim, gente. Até porque, não é do feitio de Lars Von Trier ser tão óbvio. O filme traz um conteúdo bastante subjetivo e toca nessas acusações que eu citei ali em cima. Eu acho que todos os filmes dele tem um certo tom pessoal, mas esse supera os outros. Até porque aqui, há imagens de outros filmes do diretor no meio da película, além de imagens de Hitler, de menções ao machismo e à análises pseudo psicanalíticas muito superficiais sobre o personagem. Ele zomba de tudo isso. O assassino do filme chama a si mesmo de Mr. Sofistication, e eu considero esse um bom apelido para o cineasta. É verdade que o filme choca pela violência, bastante explícita, permeada por alívios sadicamente cômicos. Mas o enredo não é só sangue, cadáveres e humor duvidoso. A Casa que Jack Construiu faz também referência a Divina Comédia de Dante e ao poeta romano autor da Eneida, Virgílio. Sofisticação, sabe?
Jack e Virgílio no Inferno de Dante.
Os jornais anunciaram no começo do ano a estréia do filme. Alguns veículos da mídia o retrataram como “o mais cruel e misógino da carreira do diretor“. Há quem diga que outro diretor polêmico, o argentino Gaspar Noé ao ver o filme em Cannes riu histericamente, o que tornou tudo ainda mais perturbador. E não foi só na minha sessão que as pessoas deixaram a sala de cinema, isso já estava anunciado em todos os lugares do mundo onde houve pré-estréia.
E aí? Ficaram com vontade de ver ou querem passar longe?