Confesso que fui assistir o filme Eu, Tonya sem grandes expectativas. Fiquei curiosa depois que uma amiga pediu minha opinião sobre, já que ela não sabia de muita gente que tivesse visto ainda. Eu não estava planejando ver, mas também detesto perder discussões interessantes sobre filmes não tão óbvios e acredito que esse é o caso aqui. Eu, Tonya é aparentemente simples e usa de entrevistas reais para inspirar o que parece um documentário sobre a vida de Tonya Harding, uma atleta de patinação artística do início da década de 90.


Patinação não é bem o meu forte. Eu não sabia nada sobre o assunto até o momento em que comecei a ver o filme, mas isso não foi nem de longe um empecilho. Não sei se é assim com todo mundo que pratica esportes, até porque sendo bastante sincera, eu não sou uma pessoa lá muito esportista. Abrindo um parênteses aqui: depois de adulta eu dancei balé por uns 6 meses e treinei muay thai por mais uns 6 e foi meio que só. Mas eu sinto muita falta tanto de um quanto de outro porque acho que há algo de profundamente subjetivo que fica visível, quase palpável quando as pessoas se dedicam à uma atividade desse tipo. Toda a busca pelo melhor desempenho e todo o modo como você coloca não só o corpo no esporte, mas também tudo mais de si é de uma sinceridade e crueza que só poderiam se expressar dessa forma, de nenhuma outra. A sensação de estar conectado a si mesmo, de encontrar refúgio em si mesmo, de descobrir uma capacidade de si mesma que você de outra forma jamais descobriria são questões profundamente valiosas e importantes, não deveriam ser descartadas por ninguém.

O filme explora bastante essa questão de quão profunda pode ser a relação de alguém com um esporte. Mas mais do que isso, esse é um filme sobre abusos, sobre humilhação e sobre nunca se encaixar. É um filme sobre sofrer por tudo o qual se ama e ter dificuldade pra sair do ciclo vicioso que a sua vida virou. É sobretudo um filme sobre o que não fazer e o que não deixar que façam com você.

Abandonada pelo pai, desprezada pela mãe, agredida pelo marido, humilhada pelos júris de patinação artística, arruinada pelo tribunal. Tonya foi alguém que deixou muito da própria vida nas mãos de pessoas que nunca tiveram consideração pelo ser humano que ela era. Que nunca valorizaram os sentimentos que ela tinha. Que não davam importância pro quanto ela podia ser devastada pelas atitudes mesquinhas ou inconsequentes deles. E Tonya sempre que pôde colocou mais e mais de toda possibilidade de ser feliz que ela tivesse nessas pessoas. “Eu não consigo sem você” é o que ela diz pra não ter de dizer que não consegue sem se sujeitar a violência (principalmente porque ela nunca conheceu outra vida). Não era a toa que sua performance fosse potencializada quando sentia raiva. A raiva era o principal afeto que Tonya teve como apoio durante sua trajetória.
Apesar de tudo isso Tonya patinava. E o que restou a ela de mais autêntico foi o ato de patinar. Na patinação ela se destacava exatamente por ser ela mesma e por não sucumbir ao que lhe impunham. Infelizmente o destaque nem sempre era positivo. Seu corpo não se encaixava. Sua aparência não se encaixava. Seus gostos não se encaixavam. Suas habilidades não se encaixavam. E tudo isso despertava raiva, por ela demonstrar maneiras tão rebeldes e por ao mesmo tempo ser tão boa, sendo até melhor do que todas as outras. Tonya foi com a patinação como ela foi em todas as outras esferas da própria vida: a melhor possível a quem nunca pediu, nunca quis e nunca seria grato por isso.

Eu quero dedicar esse texto à todas as pessoas que já conviveram ou convivem com experiências familiares ruins ou difíceis.  Desejo que vocês tenham força pra não se deixarem definir por isso, nunca.