Poster de Frances Ha | Crédito: IFC Films

Um dos filmes mais belos que assisti nos últimos anos foi Frances Ha (dir. Noah Baumbach, 2012). A história é sobre Frances, uma bailarina em seus primeiros anos na tentativa de se tornar uma mulher adulta, independente e responsável numa Nova Iorque que mescla perfeitamente a agitação noturna com a vida real da luz do dia. É preciso que se diga: não é um filme sobre o processo de amadurecimento, uma vez que a personagem de Greta Gerwig já está em seus vinte e tantos anos. O rompimento com o namorado e com a melhor amiga iniciam uma avalanche de eventos que tornam a vida da bailarina em algo confuso, com vários detalhes a serem acertados.

Há muito de retorno às origens, como visita aos pais e à universidade em que estudou, numa tentativa de superar os momentos difíceis, como o desemprego, a busca por um teto, por realizar desejos (como sua repentina, e talvez tola viagem à Paris).  Creio que a leveza com que Frances leva a vida e seus relacionamentos e seus momentos de tensão dão um toque de comportamento adolescente, mas que definitivamente nunca a deixarão, ainda que plenamente adulta. Todos os méritos para a parceria de roteiro entre Gerwig e Baumbach. Tudo no filme parece ser uma confluência dos estilos de ambos.

O filme como um todo merece ser degustado com prazer, mas um dos elementos mais belos necessita de um pouco de cinefilia para captar. Há uma referência a outro filme, Sangue Ruim (Mauvais Sang, dir. Leos Carax, 1986), especificamente na cena em que Frances corre pelas ruas da cidade dançando ao som de Modern Love, de David Bowie. No filme de Carax, o personagem Alex (Denis Lavant) também corre, mas desesperadamente cambaleante de dor, enquanto Frances corre numa dança libertadora e feliz. Certamente tal trecho de Sangue Ruim tornou-se uma das mais belas cenas de dança do cinema em grande parte pela potente música de Bowie.

Mas outro elemento me chamou muito mais atenção em Frances Ha. Talvez Frances seja um tipo outsider. Ela é bailarina, mas nenhuma bailarina que eu conheço tem aquele visual “não me importo”, com suas roupas estranhas, mas ao mesmo tempo tão comuns. Muitas mulheres usam vestidos floridos, tamancos e jaquetas. Mas o guarda-roupas de Frances tem um estilo tão simples que quem realmente não se importa… Provavelmente, no mundo real ela seria alvo de algum esquadrão da moda.

Frances também parece não se importar muito com maquiagem. Em momento algum ela está com aquela pele de porcelana imaculada das grandes divas do cinema. Arrisco dizer que ela usou praticamente zero maquiagem. Acabo de me lembrar de outro filme, Tiny Furniture (Mobília mínima, dir. Lena Dunham, 2010). A personagem Aura também aparece diversas vezes de cara lavada. Seria algum elemento comum entre os filmes do estilo mumblecore, comumente dado a ambos?

Nossa outsider é uma bailarina, e estas costumam prezar por suas posturas. É raro flagrá-las com a coluna torna. Mas lá está Frances toda torta. Não pensem que ela é do tipo magérrima e esguia, digna de um Cisne Negro (Black Swan, dir. Darren Aronofski, 2010). Isso significa que ela é descoordenada e grosseira enquanto dança? Jamais.

Frances (Greta Gerwig) e Lev (Adam Driver) | Crédito: IFC Films

Normalmente é um pouco chato falar das aparências das pessoas, mas é preciso que se fale deste caso. Numa busca rápida na memória, lembro-me de vários filmes em que personagens mulheres têm a aparência “fora dos padrões”. Geralmente (para não dizer sempre) essa questão é algo problemático e a personagem precisa superá-lo, e a narrativa conduz do “feia-friste) para o “bonita-feliz”. Um caso extremo seria o de Carrie, a estranha (Carrie, dir. Brian de Palma, 1976). Outro exemplo seria O Diabo veste Prada (The Devil wears Prada, dir. David Frankel, 2006). Nesses casos a mulher precisa passar por uma espécie de pedagogia, pois precisa aprender a ser justamente uma mulher. Já dizia Simone de Beauvoir…

Em Frances Há, a feminilidade está deslocada desse padrão estético (creio não ser necessário explica-lo, pois está aí em todo lugar). O grande trunfo do filme é que esse deslocamento não é um problema. Não há a necessidade de mudança para deixar de ser um ponto fora da curva. Seu visual nunca é questionado no filme, mas serve para nós aqui refletirmos sobre nós mesmas.

Assistir a esse filme causou-me um estranhamento. Que mulher é essa na tela? Por que me identifiquei com ela mais do que com qualquer outra personagem? A resposta parece ser bem simples: Frances é gente como a gente.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=e_RRsPtY-cI&w=560&h=315]

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=RgN4DPnIXog&w=560&h=315]