No mês passado foi o aniversário de um dos diretores mais estranhos e misteriosos do mundo do cinema atual, Alejandro Jodorowsky.

São 89 anos de vida e 61 desde seu primeiro trabalho A Gravata (um curta disponível  Vimeo, que eu recomendo vocês procurarem).

Falar sobre o diretor não é simples. E digo principalmente por mim, que depois de ter descoberto seus filmes nunca mais tive a mesma relação com o cinema. Nem pra ele mesmo é fácil, pra vocês terem noção. Em 2013 ele fez seu primeiro filme “autobiográfico”, A Dança da Realidade, que ele mesmo descreve como uma autobiografia imaginada. Em 2016 fez outro, Poesia Sem Fim. Ambos os filmes misturam elementos reais e ficção, mostram personagens bizarros mas muito humanos e intervenções dele mesmo pontuando os detalhes e se enfiando no meio das cenas. Mas eu não recomendo começar por aí. Pra gostar desses filmes você precisa ter sido apresentado às suas outras obras e estar habituado ao seu estilo caótico e bastante simbólico de contar histórias. Meu favorito é Santa Sangre que tem como personagem principal um homem recém saído do manicômio, um vilão tirano atirador de facas dono de circo e um culto pagão à uma mártir sem braços. Não é preciso muito para saber que não há nada como Jodorowsky no mundo do cinema. Com o lançamento de El Topo, ele foi considerado o primeiro grande nome do hype criado em torno dos midnight movies (filmes que, por não serem considerados muito comerciais, eram exibidos nas sessões da meia-noite) junto com David Lynch, George Romero e John Waters. Entre seus maiores fãs destaco os Beatles John Lennon (que foi aliás responsável por boa parte de sua fama) e George Harrison, que quase interpretou o personagem principal de A Montanha Sagrada (mas desistiu por um certo pudor em relação a mostrar partes do corpo). Mas também há Kanye West, que fez um show inspirado nesse mesmo filme; e eu gosto de dedicar uma menção honrosa aos fãs de Paulo Coelho que confundiram Jodorowsky com o autor há uns dois anos atrás e formaram uma grande fila num aeroporto onde ele serenamente autografou diversos livros. Considero esse episódio primoroso. 

Pois bem. Eu fiz toda essa introdução pra falar na verdade sobre um assunto polêmico. Desde que resolvi fazer esse post em homenagem à Jodorowsky eu tenho me dedicado a ler mais sobre suas histórias e sua relação com o cinema. E posso dizer que ele já fez algumas declarações difíceis de defender. Depois do lançamento de El Topo, em 1970, ele deu uma entrevista polêmica onde disse que havia de fato estuprado a atriz que interpreta Mara. A história é mais louca e ambígua do que parece, porque segundo ele, ele avisou a atriz que iria estuprá-la e ela aceitou. Primeiro eles foram ao deserto e ele pediu que ela o espancasse. Ela bateu nele um pouco e ele disse pra ela que a dor não existia, então ela bateu nele até ele quebrar uma costela. Quando se recuperou, eles voltaram ao mesmo local e ele disse “agora é minha vez” e o ato foi consumado. Eles filmaram e a cena pode ser vista em El Topo. Anos após isso, ele desmentiu a história e disse que transou com ela de verdade, mas com o seu consentimento. Ninguém nunca ouviu a versão dos fatos da atriz, que desapareceu do mundo artístico.

E eu realmente quero acreditar em Jodorowsky. Acho que existe toda uma questão em relação ao contexto da época, do uso da linguagem, das coisas loucas que Jodorowsky fala e sempre falou. De qualquer forma, eu vou continuar gostando da obra dele. Vou continuar indicando pras pessoas, rindo da história dos fãs do Paulo Coelho. Os filmes dele ainda são filmes que me fizeram me apaixonar pelo cinema. Mas é um assunto difícil. E esse texto acaba por dizer repeito também a tantos outros cineastas, envolvidos em polêmicas ainda piores, mas cujos filmes falam tão profundamente comigo ou sobre mim que eu considero um crime deixar de apreciar as coisas boas que eles fizeram, mesmo que em meio à coisas muito ruins.

E vocês, o que acham? Também têm sentido o aperto no peito de se deparar com o dilema moral do autor X obra?

Agradeço às meninas da Revista Verberenas pela ajuda pra escrever esse post.