O que há de hereditário em Hereditário?


Uma análise psicológica sobre o primeiro longa metragem de Ari Aster.

Já vou avisando que esse texto contém spoilers. Leiam só depois de assistir. Hereditário vale a pena principalmente se você, como eu, gosta não só de terror mas também de psicologia e psicanálise.

É fácil assistir Hereditário e o considerar um filme de terror mediano, com um mistério envolvendo uma seita de adoradores decapitados e um demônio da realeza infernal, além de fantasmas. Não que isso já não seja aterrorizante o suficiente, o filme mantém uma atmosfera sinistra e claustrofóbica durante todo o tempo, sem apelar pra sustos ou muito sangue. Mas a pergunta que eu me fiz enquanto o via foi: o que há afinal de hereditário em Hereditário?

Nenhum detalhe desse filme está ali por acaso, não existem pontas soltas. A primeira coisa que se tem que ter em mente é que esse é um filme sobre Peter, o filho mais velho de Annie. A dica pra isso é a primeira cena, que mostra uma casa de bonecas feita por ela. Quando a câmera dá zoom vemos Peter em seu quarto, sendo acordado pelo pai para ir ao enterro da avó, o que também já nos avisa sobre o tema do filme: a perda.

A família.

Uma das cenas mais importantes do filme é a cena onde Annie vai ao grupo de apoio e conta a história trágica de sua família. Todos citados por ela possuíam problemas mentais. A mãe possuía múltiplas personalidades, o pai morre de inanição por conta de uma depressão severa que o fez não querer comer mais e o irmão, que era esquizofrênico, se enforca, após acusar a mãe dele de colocar pessoas dentro dele. Analisando a personagem Charlie, a filha mais nova de Annie, podemos dizer que ela é autista, e Annie ela mesma depois nos conta das suas crises de sonambulismo, numa das quais quase pôs fogo nos filhos. Steve, o marido de Annie, figura quase ausente, apática, sem energia, toma remédios que não nos são especificados pra quê, mas que o fazem dormir profundamente, o que o torna ainda mais alheio aos problemas da família.
É com esse histórico que, de maneira provavelmente inadvertida, Peter fuma muita maconha. Pra quem não sabe, há estudos que mostram que a maconha é uma droga considerada perigosa para quem tem predisposição a psicose, porque ela pode acentuar e antecipar surtos psicóticos.¹ Pensando nisso, podemos inferir que todos os personagens do filme são construídos também a partir dos delírios e fantasias que Peter cria a partir deles,considerando a hereditariedade da doença mental.

Charlie.

Primeiro, temos a pequena Charlie. Provavelmente a personagem mais carismática do longa, a menina fica muito triste com a morte da avó, que cuidou dela e chegou a amamentá-la quando era bebê. Peter diz não ligar muito para a morte da avó, mas Charlie era a favorita dela. A única decepção da avó com relação a menina é que ela não nasceu menino, segundo interpretação da própria Charlie. Depois de ser obrigado a levá-la para uma festa, Peter mata a irmã num acidente de carro que ocorre logo após um episódio de descuido, onde ele a larga comendo bolo para ir fumar com os amigos. Não é uma morte qualquer. Como se não fosse apavorante o suficiente ela ter uma crise alérgica que a impede de respirar e a deixa se debatendo agonizante no banco de trás, ela ainda se encosta na janela do carro para respirar melhor e é decapitada por um poste de luz. A cena de Peter em estado de choque, recusando-se a ver a irmã morta, não só é muito humana e verdadeiramente angustiante, mas também é crucial para entendermos o sintoma de Peter.

Depois, passamos a acompanhar mais de perto Annie, com toda sua dor de ter perdido não só a mãe, mas agora também a filha. Ela, sem contar a ninguém da família, passa a frequentar a casa de Joan, uma mulher que tem em comum com ela a perda de um filho. Joan a convence de experimentar um ritual que torna possível o contato com os mortos, ao qual Annie submete a família toda.

Annie.

A cena que antecede essa é importante. Annie ao seguir um rastro de formigas que vai até o seu travesseiro encontra o filho morto com o rosto coberto pelos insetos (igual a cabeça de Charlie, quando encontrada na estrada). Logo em seguida ela “acorda” de um estado de sonambulismo e, sem querer, diz ao Peter que nunca quis ser mãe dele, que tentou abortá-lo. Depois ela ateia fogo em si mesma e no filho, o que demonstra que tudo ainda se tratava de um sonho. O que pode confundir aqui o telespectador é que a primeira vista o sonho parece ser de Annie, mas é Peter quem diz estar sendo acordado de um pesadelo.

Fica claro que Peter nunca teve o amor que sua irmã Charlie possuía, nem da avó, nem da mãe, nem mesmo de nós que assistimos o filme. E é por isso que ele tenta tomar o lugar dela, como na cena onde ele diz aos amigos enquanto fumam que ele está sofrendo dos mesmos sintomas de reação alérgica que a irmã sofria.

E o que dizer do pai de Peter e Charlie, marido de Annie? É uma figura paterna completamente ausente, assim como o pai de Annie era e como são as instituições nesse filme (ninguém chama a polícia, os bombeiros, recorre a um hospital nem nada do gênero). Em todas as cenas que ele aparece sua figura é ofuscada pelos outros personagens e sua voz não tem nenhum poder, como fica claro na cena onde Annie e Peter discutem no jantar. Analisando de um ponto de vista psicanalítico, ele é um pai que não exerce nenhuma função de castração simbólica, o que facilita a ocorrência da psicose.² E falando nessa cena, é ela quem desencadeia outra posteriormente, onde Peter se olha no espelho da sala de aula e enxerga em si mesmo a cara de deboche que sua mãe o acusa de ter. Ele tem um surto e bate com o rosto na carteira, se machucando.

Peter.

Diante de tantas situações traumáticas, o sobrenatural é a desculpa a qual Peter recorre para encenar a sua morte e ressurreição como Charlie, a filha amada e ao mesmo tempo como um demônio adorado por súditos que perderam a cabeça (uma metáfora para a doença mental). É uma narrativa difícil, já que o que realmente aconteceu e o que é delírio e fantasia ficam condensados de uma maneira perturbadoramente ambígua. Mas é exatamente assim que uma pessoa perdendo o contato com a realidade deve se sentir.

Se ignorarmos essa explicação e abraçarmos a narrativa de Peter teremos o seguinte problema: a avó dele não fez um pacto com o demônio para ser poderosa, rica, ou ainda, literalmente uma rainha? A família não parece ser pobre, mas tampouco parece muito rica, apegada a luxos ou detentora de algum poder. Tanto Annie quanto o marido trabalham e parecem precisar disso. A avó morre com demência e todos os seus pertences servem em 3 caixas de papelão, preenchidas principalmente por álbuns de foto, livros de espiritismo e capachos que ela mesma produzia. Ao pesquisar sobre o demônio Paimon, pelo qual Peter é possuído, descobrimos que a história contada no filme não é a mesma contada pelos mitos e foi completamente reinventada aqui pra caber na narrativa.

Peter.

É interessante também pensar no questionamento do professor de Peter, quando ele pergunta a turma se no caso de uma tragédia é pior ser responsável por ela ou predestinado a sofrê-la sem possibilidade de intervenção. Uma menina diz que é pior ser responsável, logo, podemos interpretar que é melhor ser predestinado a ela, como o é Peter, nessa situação.

Por fim, outra coisa que chama atenção são os desenhos encontrados no caderno de Charlie, onde Peter tem os olhos marcados com “X”. Os desenhos, podemos supor, simbolizavam a morte de Peter, mas também podem simbolizar sua recusa de enxergar as coisas claramente (ou factualmente). Um exemplo mais concreto disso é a cena onde ele procura a mãe pela casa a noite, mas não acende as luzes.

Os fantasmas e demônios a temer no filme são bastante reais: a perda das pessoas amadas e da sanidade psíquica. E é isso que torna esse um dos filmes mais aterrorizantes já feitos.

 

 

¹ Esse é um tema polêmico, mas em geral há comum aceitação na ideia de que se consumida em grandes quantidades e se o usuário já tiver predisposição genética a esquizofrenia, as chances de surto e agravamento são significativos. Tem uma matéria interessante sobre o assunto aqui

² Para compreender melhor o significado de termos como figura paterna e castração em psicanálise, recomendo esse artigo curto: http://www.scielo.br/pdf/pe/v17n1/v17n1a08.pdf