Wiener-dog (ou, um ensaio sobre a solidão)


A linguagem é muitas vezes insuficiente para expressarmos o que se sente.

Wiener-dog, Todd Solontz.

Um dos filmes que mais me tocaram nesse ano foi Wiener Dog, do meu querido diretor Todd Solondz. Não é novidade que tudo que Solondz dirige é melancólico e bonito, apesar de ser um bonito melancólico, e dessa vez não foi diferente. O filme conta a história de uma cadela linguicinha ( uma wiener-dog, em inglês) que passa de lar em lar, tocando a vida das pessoas de alguma forma. Sendo companhia para os momentos difíceis, principalmente naqueles onde os sentimentos são intensos demais para expressar com palavras. É possível dizer o mais óbvio, que quando se tem um cachorro nunca se está sozinho, que num cachorro sempre é possível encontrar lealdade, afeto e companheirismo. Mas o cachorro só é capaz de ocupar esse espaço parcialmente, de maneira que a solidão é algo inevitável no fim das contas. Não é algo tão simples, mas fica mais fácil entender se vocês verem o filme. Cada personagem vive um drama pessoal indizível. A gente pode sentir, acompanhar alguns detalhes, presumir algumas coisas. Mas saber só eles sabem. Talvez a cadela também, mas ela é igualmente incapaz de verbalizar o que acontece.

 

 

A última dona.

O filme tem uma curiosa ordem cronológica, a primeira pessoa que adota a cadelinha é uma criança sobrevivente do que parece um complicado câncer, ainda assim não tão complicado quanto a sua família. 

Depois, fica com uma jovem insegura e cheia de expectativas, dramas do início da vida. Um jovem casal com síndrome de down ganha a cadela de presente. Depois, um velho professor e cineasta frustrado. Por fim, a cachorrinha termina com uma velhinha cega que já está nas últimas. Ela a batiza de câncer, acha um bom nome, uma piada mórbida que combina com a própria vida. Estão todos sozinhos, já que ninguém é capaz de compreende-los e já que eles não são capazes de dizer. A linguagem é muitas vezes insuficiente para expressarmos o que se sente.

 

O cinema apesar de dizer muito da subjetividade, não diz tudo. Nem a presença de um cachorro é capaz de preencher esse espaço. E no  final das contas estamos todos sozinhos, mesmo quando acompanhados.