Um papo poético sobre vinho ligando Curitiba ao Dão


Um papo "super" Brasil-Portugal com o jornalista português José Luís Araújo.

Conheci o José Luís Araújo em uma das minhas aulas de sommelier. Ele estava a acompanhar a Susana Melo Abreu, enóloga que gostou da minha apresentação do poema de Pablo Neruda que fiz na aula. Depois disso, chegou o convite para a inauguração do MAI – Museu de Arte Indígena, onde o vinho da Susana e do marido, Índio Rei se sentia em casa.

Eles voltaram para Portugal, e com as minhas inspirações sobre o vinho que surgiam nas aulas, surgiram textos e o José Luís Araújo começou a publicar alguns dos meus textos na Revista “Gazeta Rural” de Viseu.

E ainda fiz algumas crônicas aqui do Brasil para o Programa da Tarde comandado pelo José Luís Araújo na RCI, rádio de Viseu, falando de Brasil e Portugal, algumas crônicas, aliás, foram gravadas do Festival de Ribeirão Preto, onde fui lançar meu terceiro livro: “Olhos de Mar Cheios de Água” livro que homenageia Portugal e Fernando Pessoa; e a Feira de Ribeirão Preto em 2017 também homenageava ambos.

Quer mais Brasil e Portugal que isso? Bem, hoje teremos um papo super Brasil-Portugal com o jornalista português José Luís Araújo.

 

José Luís Araújo por José Luís Araújo:

Nasci numa aldeia beirã chamada Silvã de Baixo, no concelho de Sátão, e vivo em Viseu há quase meio século. Sou uma pessoa normal, com virtudes e defeitos como qualquer um de nós.

A paixão pela escrita nasceu cedo. Meu avô era correspondente de um grande jornal nacional, o Diário de Notícias, onde aprendi a ler. Um dia, teria eu 13 anos, o meu avô disse-me que iria comunicar ao jornal a sua renúncia e que me iria propor para correspondente em sua substituição. Fiquei assustado, mas ele garantiu que me ajudaria.

Anos mais tarde descobri a rádio. Esta é uma ‘lapa’, algo que não se estranha, mas entranha-se. Diria que essa é a minha grande paixão. Trabalhei nalgumas das rádios da região, mas também em rádios nacionais, nomeadamente a Renascença, uma das mais ouvidas em Portugal. Contudo, houve um momento em que tive que tomar decisões, entre a ‘instabilidade’ profissional e a paixão pela rádio ou iniciar uma atividade própria. Ganhou a segunda. Foi aí que nasceu a Gazeta Rural, em 2004, e se acentuou a minha paixão pela escrita. Na rádio fiz de tudo, mas o que mais gosto é do direto, trabalhar sem rede. Por isso, fiz relatos de futebol durante 32 anos. Este ano decidi parar, só não sei por quanto tempo.

 

A Revista Gazeta Rural fala muito da tradição portuguesa. Fala de agricultura, gastronomia e vinhos. Como surgiu a ideia da Revista?
A minha formação profissional é na área da contabilidade e gestão. Tive a sorte de trabalhar sempre perto do topo da hierarquia e lidar com números. Num determinado momento decidi avançar para um projeto pessoal. Entre os números e as letras, estas venceram. Queria fazer algo diferente, que não existia na região. Assim nasceu a Gazeta Rural, que com o tempo se foi moldando a cada momento.

Em 2004 falar de agricultura, produtos locais, vinho ou gastronomia era uma coisa para gente de ‘classe baixa’. A terra suja os pés, as mãos e levanta pó, quando sêca. Só que eu nasci na terra, sujei os pés e as mãos, lavrei a terra, semeei o milho, plantei as batatas, fresei a vinha, podei as videiras, colhi as uvas, pisei-as no lagar e provei o primeiro vinho da bica.

Hoje, falar de vinho, de gastronomia e produtos endógenos já é coisa para ‘gente fina’, mesmo para alguns ‘críticos’ que nunca plantaram uma batata ou cortaram uma uva. Críticos de vinho e de gastronomia surgiram como cogumelos. Por isso admiro alguns. Destaco os meus amigos Manuel Moreira, que fala de vinho, e o Fernando Melo, que diz não ser crítico gastronómico, mas sim…. De comida.

Atualmente já toda a gente fala destas coisas, passou a ser chique, mesmo que não se perceba nada do assunto, de vinho, de gastronomia, de harmonização, de produtos endógenos, etc. Cá por mim, só sei que, depois destes anos todos, nada sei.

Qual o diferencial poético da Revista?
Boa pergunta. A escrita é, em si, um ato poético. Não te sei dizer, mas gosto de escrever, mas muito mais de ler, especialmente aqueles autores que me obrigam a pensar. José Saramago, por exemplo, obriga-nos a tentar perceber cada frase.

Onde as pessoas encontram a Revista?
A revista está disponível no nosso site (www.gazetarural.com) e em plataformas como o Issu e Calameo. A versão impressa é enviada para clientes e assinantes. E são muitos.

 

Qual o cheiro poético que podemos encontrar em um vinho do Dão?
O cheiro da terra, do granito, do xisto e da vegetação desta região. O Dão é poético, quando procuramos os aromas de um Encruzado, os taninos de um Touriga Nacional, a acidez de um Malvasia Fina, a elegância de um Alfrocheiro, a doçura de um Bical (Borrado das Moscas) ou a fruta madura de um Cerceal. O Dão é um poema, quando olhamos para um copo de vinho e o apreciamos.

 

 

Qual o vinho mais poético que já tomou na vida?

O vinho do Dão.

De cor rubi e subtil reflexo atijolado,

Aroma intenso a fruta madura,

O Dão tem sabor complexo e delicado,

De textura aveludada que dura.

 

Eu já vi você falar que Curitiba é a sua cidade preferida no Brasil. O que a minha cidade natal tem de especial?
As pessoas. Tenho alguns bons amigos em Curitiba, que fazem o favor de me tratar muito bem quando aí estou. Citar algum seria um risco de me esquecer de outros. Além disso, tenho uma nora curitibana.

A juntar a isto, a cidade. Costumo dizer que se Viseu, a cidade onde moro há mais de 40 anos, fosse plana seria como Curitiba. Há coisas que não se explicam. Sentem-se. E que mais posso dizer se em Curitiba me sinto em casa?

 

Como você percebe o vinho português no Brasil? É apreciado?
Sim, mas talvez não chegue “aquele vinho”. Explico. Já chegam ao mercado vinhos portugueses excelentes, mas as taxas aplicadas fazem disparar o preço dos mesmos.

Contudo, há um dado novo, que é uma inversão na produção em Portugal. Até há poucos anos os vinhos eram, de um modo geral, muito… iguais. Álvaro Castro, um dos grandes enólogos e produtores no Dão, dizia-me há uns dias que “aquela coisa de esperar pelo que chega à adega e depois fazer milagres acabou”. Ou seja, a alquimia no vinho está a acabar. Diz-se que o vinho ‘faz-se’ na vinha. Ora, isto é para se levar a sério, tendo em conta as alterações climáticas, que este ano foram severas para o vinho do Dão e, de um modo geral, em Portugal, com quebras de produção significativas.

Quero com isto dizer que há produtores que têm grandes vinhos, que fazem a diferença, mas que quase não chegam ao mercado, porque a quantidade é pequena e por isso tão procurados. Esses são vinhos a descobrir para quem por cá vier. Lembrei-me de um espumante do Dão feito com Touriga Nacional de pé franco, ou de um vinho tinto de um produtor do Dão, feito por agricultores que usaram os métodos e as técnicas de há 50 anos.

 

O que acha do vinho brasileiro?
Penso que há um longo caminho a percorrer. Contudo, há potencial, não para vinhos complexos, encorpados e estruturados como os do velho mundo, mas para néctares com as tendências atuais do consumidor. Quem quiser vinhos mais complexos e diferentes… terá que vir ao Dão. Digo eu.

Tenho dito que o futuro do sector do vinho no Brasil passa pelos espumantes. Acredito seriamente que poderão chegar a patamares de qualidade muito bons. E já há quem os esteja a produzir.

Há um facto que me chama a atenção, que é a aposta em castas francesas e italianas. Acredito que castas portuguesas como a Malvasia Fina, a Cerceal ou a Baga, para espumantes, seriam uma boa aposta. Assim como a Touriga Nacional, nos tintos, e Arinto e Encruzado, nos brancos, poderiam ser excelentes opções.

 

Qual o seu poeta favorito? E por quê?
Diria que não tenho um poema favorito. Gosto de Fernando Pessoa, naturalmente, Florbela Espanca, Sophia de Melo Breyner, Ary dos Santos ou Carlos Paião, estes dois vultos da cultura portuguesa já desaparecidos, são os meus favoritos. Permite-me que desafie os leitores a descobrir, aqueles que ainda não conhecem, Miguel Torga ou Aquilino Ribeiro, dois escritores portugueses que melhor retratam a vida no último século no interior de Portugal.

Na música gosto de Marisa, Paulo Gonzo, Pedro Abrunhosa, Osvaldo Montenegro e Zeca Baleiro, entre muitos outros.

 

Qual a dica número um que você dá para quem quer se aproximar dos vinhos do Dão?
Que tenha mente aberta e sem um conceito predefinido. A Região do Dão é pequena, mas com vinhos diferentes. Aconselho que venham e partam à descoberta. Na região há cerca de 60 castas autóctones que fazem toda a diferença. As últimas a serem ‘levadas a sério’ são a Tinta Pinheira, nos tintos, e a Bical (Borrado das Moscas), nos brancos.

Não cito marcas ou produtores, por razões óbvias, mas para os enófilos diria que encontram nesta região, provavelmente, os melhores vinhos do mundo. Se por cá vierem, terei muito gosto em ser vosso cicerone.

 

E então, vinho e poesia combinam? E por quê?
Quando olhas para um copo de vinho o que vês senão poesia? Se olharmos para o ciclo do vinho, encontramos poesia a cada passo, a começar pelas pessoas que nele trabalham. Esses são os verdadeiros poetas do vinho. Sem eles veríamos um copo… vazio, transparente.

 

Gostaria de falar algo que não perguntei e acha importante?
Minha amiga, fizeste perguntas às quais nunca pensei responder. Estou habituado a fazer perguntas e não a responder. Contudo, ficaram, efetivamente, duas por fazer, uma consequência da outra.

 

 

 

O que combina melhor com o vinho do Dão?
Respondo: Comida. Sim, comida! O vinho do Dão pede boa comida.

 

Segunda pergunta: Sugestões?
Cá vai. Experimentem harmonizá-lo com enchidos da região, queijo Serra da Estrela, cabrito da Serra do Caramulo, borrego da Serra da Estrela, arroz de carqueja, vitela assada à Lafões, entrecosto com chouriço e grelos, cozido à Portuguesa, ou vitela assada com arroz de forno. Para sobremesa sugiro o nosso típico ‘Viriato’, castanhas de ovos de Viseu, os pastéis de Feijão, pasteis de Vouzela, arroz doce, leite creme, papas de carolos, entre muitas outras opções da doçaria conventual desta região.

Ficou com água na boca?
Então, venha por cá.

 

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