Todos sabem que a arte contemporânea tem seus momentos de difícil compreensão. Momentos em que simplesmente não entendemos a obra ou a intenção do artista, não conseguimos estabelecer aquela conexão entre aquilo que trazemos das nossas experiências e aquilo diante do qual nos deparamos. Nesses casos não há diálogo, mas sim um sentimento de complexidade, de “será que falta algo?”, de “não entendi”.

Pior ainda quando esse sentimento se transforma em algo como: “é, não nasci para gostar de arte”, “isso aí nem é arte!”, “nunca vou entender isso, mesmo” ou, a condenação final: “não gostei”.

Pois bem, a exposição Nomos de Laura Miranda foi um desses momentos para mim.

Vi, ouvi, não entendi.

Ao adentrarmos a sala oito do Museu Oscar Niemeyer, somos apresentados ao projeto Líquens 2014/2015; o segundo projeto: Estrela Canina 2016/2017 ocupa o restante da sala, fechando a exposição com uma videoinstalação.

Laura Miranda e Mônica InfanteDa esquerda para a direita: Laura Miranda [1] e Mônica Infante [2].
Líquens surgiu do contato da artista com técnicas tradicionais de tingimento e comunidades têxteis ao longo da península de Kutch, na Índia. Em várias viagens ao país, Laura Miranda e Mônica Infante (esta última participa também das videoinstalações) conviveram com famílias que tiravam seu sustento do ambiente e de seu entorno, daí ser o tema principal desse projeto “as relações simbióticas de proteção e nutrição” [3] entre o ser e seu meio.

Uma vez no Brasil, Miranda se volta para a Área de Proteção Ambiental do Passaúna (APA do Passaúna) enquanto ambiente a ser observado. Tal Área tem especial importância para Miranda, já tendo sido objeto de outras de suas obras: Lago Amarelo, Spirare e Zênite, além de ser um local frequentado pela artista.

 

Nomos - Laura MirandaVideoinstalação do projeto Líquens 2014/2015.

Essa relação com o Passaúna marca a videoinstalação que abre a exposição, logo à direita de quem adentra a sala. Em uma pequena tela é mostrado um vídeo continuamente. A vista é de cima. Nos cantos da tela temos a vegetação de uma mata fechada, no centro, um riacho, no riacho, duas mulheres: Miranda e Infante. As mulheres trajam vestidos brancos, compridos. As duas estão deitadas de lado em meio ao riacho que corre sobre seus corpos. Tudo é lento, tudo é demorado. O que ouvimos é uma mistura de sons da reserva do Passaúna, do correr das águas, e uma música calma. Lentamente leite, índigo e ouro em pó são despejados, sucessivamente, no riacho e seguem seu fluxo corrente abaixo. Os pigmentos envolvem os corpos no riacho. Dourado ou índigo, os pigmentos deixam marcas nos vestidos antes alvos. Elas se põem sentadas (como na breve cena mostrada acima) erguendo-se para fora do fluxo do rio de modo que a câmera capture os resquícios dos pigmentos que passaram por suas roupas.

No texto “Vestir o Mundo” Artur Freitas defende que a memória é um elemento importante na obra de Miranda. Mais do que isso, ele defende que para a artista a memória se configura como lembranças de vivências afetivas de lugares concretos [4]. Seriam as marcas dos pigmentos sobre os vestidos tais lembranças?

Nesse mesmo texto Freitas argumenta que um tema caro para Miranda é o uso do corpo como instrumento para a arte, o que certamente está presente na videoinstalação em questão, e define o trabalho de Miranda como uma “ação de vestir o mundo”, “como se fosse possível vestir a natureza” [4]. Esse outro ponto me parece mais interessante para estabelecermos uma aproximação com o que nos é apresentado.

No vídeo, Miranda está em meio a uma mata fechada, em meio à natureza. Quase submersa no riacho, a água lhe cobre o corpo. A sua pele sente a temperatura d’água; os ouvidos, os sons da mata; as narinas captam o cheiro de folhas, de musgos, de umidade, ela está envolta, coberta pela natureza, mas ainda assim resta seu vestido que a separa do entorno do Passaúna. Mesmo que não restasse, sua pele ainda faria às vezes de uma barreira entre o “eu-dentro” e a “natureza-fora”. A solução é usar os pigmentos, os quais ao se mesclarem ao vestido o transformam daquilo que era uma barreira em algo que aproxima mais do que afasta o entorno. Ela passa a vestir o mundo. É de se imaginar que se houvesse algum jeito a Miranda deste vídeo pigmentaria a própria pele na tentativa de se mesclar com a natureza.

Lendo o que acabo de escrever me sinto menos “complexado”: “aha, eu entendi!” uma parte de mim parece exclamar. Mas então eu me lembro de que o que mais me chamou a atenção enquanto eu observava a videoinstalação em questão não era a obra em si, mas o comportamento das outras pessoas frente a ela: a maioria não assistia toda a obra.

Acredito que a exposição não forneça elementos que possibilitem ao público ler as obras ou se identificar com elas. No meu caso, tive de recorrer ao trabalho de Freitas e a referências de obras pregressas da artista para conseguir fazer uma única interpretação. Sem esses elementos, a obra, para mim, ficaria reduzida: duas mulheres, vestindo branco, em meio ao um riacho enquanto pigmentos lhe colorem as roupas. Frente a isso, qual interesse que se desperta em mim? Acredito que os demais tenham feito a mesma pergunta quando decidiram não esperar o término do vídeo.

A impressão que fica é que a artista tem mesmo um amor pela natureza, em especial por aquela presente na APA do Passaúna, mas ela se fecha nesse sentimento. Como eu posso compartilhar desse sentimento? Sou chamado a compartilhá-lo? O vídeo com a tomada de cima, as artistas de lado, sem olharem para a câmera mesmo quando se erguem do riacho, dão a impressão de que devemos tomar o lugar de observador distante, um espectador frente à obra. Mas então como podemos nos conectar com esse desejo de vestir o mundo se  não somos instigado, seja pela proposta de reflexão, pelo valor estético, pela composição particular das obras, pela expressão singular de um sentimento, a percebê-lo?

É como se a artista dissesse: “Eu amo isso, e isso que estou expondo é meu modo de expressar o que sinto. Mas não me incomodem”.

 

Nomos - Laura MirandaPainel com desenhos de Líquens. Atenção para a evolução das tonalidades da esquerda (azul escuro), para o meio (branco) e então para o canto direito (dourado).

No lado oposto da videoinstalação, temos um painel formado por 88 desenhos dispostos em oito linhas e 11 colunas. Cada um desses desenhos mede em torno de 30 cm por 30 cm. Neles temos o contorno de líquens, ou musgos, cortados a laser e quase que inteiramente destacados do papel. Além disso, o papel é preto, índigo, dourado ou branco. A composição geral do painel evolui do escuro para o dourado, para o branco e novamente para o dourado. É uma referência ao índigo, ao leite e ao pó de ouro que as artistas despejam no riacho na videoinstalação.

Nomos - Laura MirandaCada desenho é composto por contornos recortados no formato de líquens.

A composição do painel em si é agradável esteticamente: observar a evolução das tonalidades, da mais escura para a mais clara e então para o dourado, a distinção entre a figura recortada do líquen e seu fundo, o relevo criado pelo destaque do desenho e sua sobreposição.

É de se imaginar que esses líquens fizessem parte da paisagem que Miranda observava enquanto seu corpo estava submerso no processo de tingimento.

 

Nomos - Laura MirandaPapel cortado no formato de samambaias destacadas de seu suporte em meio a cores que lembram motivos ribeirinhos.

O mesmo processo é utilizado no conjunto de obras do lado oposto da exposição. Aqui as obras mantém sua individualidade, mas compõem um conjunto pela unidade no motivo e na abordagem que é empregada. Trata-se de um grupo de painéis alongados verticalmente. Nestes painéis, novamente, o papel cortado a laser é empregado. As tonalidades são o azul e suas variações, o branco e também as variações de preto, de cinza e talvez um pouco de marrom. A figura remete ao contorno das folhas de samambaias e de plantas típicas de áreas ribeirinhas.

Novamente é de se esperar que tais figuras fizessem parte do cenário visual no qual estava inserida Miranda quando dentro do Passaúna. Além disso, temos o senso estético valorizado mais uma vez através do uso diferenciado das cores: enquanto no primeiro painel pela evolução nas tonalidades aqui por explorar o contraste e complementaridade entre as tonalidades.

Os outros dois painéis seguem o mesmo raciocínio. Também são produzidos através do corte a laser sobre papel.

Aqui temos duas características interessantes para além da obra em si as quais tratam do processo empregado por Miranda. Em primeiro lugar, Miranda opta pelo corte a laser do papel. Trata-se, arrisco, de uma característica de uma corrente da arte contemporânea na qual o artista se abstrai da obra final a qual passa a ser um produto alheio aos seus sentimentos e à sua vontade. Tendo os arquivos digitais utilizados pela artista poderíamos produzir a mesma obra, até mesmo em larga escala. Em segundo lugar, o fato de destacar o contorno recortado do papel impede que classifiquemos a obra como puro desenho ou pintura, mas ao mesmo tempo está claro que não se trata de uma escultura. Outra característica da arte que começou a se desenhar a partir dos anos 60 no âmbito internacional e que aqui no Brasil teve em Hélio Oticica um grande expoente.

Porém, mais do que um casamento de Miranda com os grandes temas da arte contemporânea Líquens me figura como um flerte. Miranda emprega seus elementos, mas a temática continua  tradicional: a impressão que tem de sua experiência do Passaúna. É como se ao invés de tirar seu cavalete do estúdio e leva-lo até os campos para pintar a fugidia impressão dos momentos como fizeram os Impressionistas, Miranda usa sua máquina de corte a laser e destaca seus desenhos de seus suportes, mas a temática continua a mesma: a impressão da artista de um ambiente natural.

Em Estrela Canina: 2016/2017 por outro lado considero que essa “ação de vestir o mundo” obteve maior força, especialmente nos quadros à esquerda da sala da direção daqueles que adentram o recinto.

Nomos - Laura MirandaNa esquerda acima e na direita abaixo: Quadros de Estrela Canina: 2016/2017. Os demais: detalhes das tiras negras e das fotografias aumentadas de pelos de cachorro.

Tais quadros possuem cerca de um metro e vinte, ou um metro e cinquenta de altura pela mesma dimensão em largura. Usam o preto e o branco e variações de cinza somente. São compostos por tiras, retângulos e linhas. Algumas dessas tiras são pretas, outras são brancas e outras trazem impresso fotografias expandidas dos pelos de cachorros que a artista encontrou em situação de vulnerabilidade em meio ao Passaúna: partido e tema da exposição. Tais elementos são dispostos em semelhança às composições neoplasticistas e o resultado final se assemelha a uma trama de tecido.

Aqui acredito que Miranda tenha obtido maior sucesso em explorar esse desejo de vestir a natureza. O resultado destes quadros apresenta uma trama formada por elementos racionais: linhas, retângulos e tiras entrelaçados a fotografias dos pelos dos animais. É como se Miranda estivesse tramando um vestido no qual a linha hora é humana, hora é animal, hora é racional, reta, pura, hora é curva, variada, orgânica; como se quisesse vestir a natureza animal do cachorro entrelaçada à razão humana.

Nomos - Laura MirandaLaura Miranda e Mônica Infante em videoinstalação de Estrela Canina.

Outra obra de Estrela Canina é a videoinstalação que ocupa a sala do fundo. Com quase 25 minutos de duração a instalação apresenta cenas de Miranda e Infante vestindo trajes de couro negro em meio ao Passaúna.

As tomadas são hora por cima, hora de frente, hora íntimas, hora distantes. Miranda e Infante parecem tentar personalizar a experiência de ser um animal: encontrando-se com outro, debatendo-se, abandonado à morte. Os movimentos executados lembram rotinas da dança contemporânea (Miranda e Infante são formadas em dança). Há música para acompanhar o desenvolvimento da obra. Novamente, porém, as pessoas que observei, de modo geral, não optam por permanecerem na obra por muito tempo, com certeza, por menos de sua duração.

Nomos - Laura MirandaQuadro com silhueta de cão: animal tema de Estrela Canina.

A exposição Nomos é interessante em si mesma e importante para o MON o qual visa se firmar cada vez mais como espaço da arte contemporânea. Não é uma “exposição block-buster” como o curador do Museu: Agnaldo Farias, costuma tratar as exposições mais tradicionais, sucesso de público (pensemos na exposição de um Portinari, ou de uma Anita Malfatti), nem busca ser. É uma exposição com a qual eu tive dificuldade de me conectar, de apreciar e de entender em primeira mão, mas que tem seu peso.

A título de adendo gostaria de fazer um comentário sobre a forma da exposição. Uma dificuldade que tive em escrever essa crítica foi justamente de não poder citar o nome das obras, nem suas dimensões e materiais exatos. Isso se dá, em parte, porque quando fui visitar a exposição percebi que aquelas “plaquinhas” que se colocam em geral ao lado dos quadros foram substituídas por QR codes.

Entendo que possa ser um esforço de modernizar as instituições, especialmente os Museus geralmente apegados às tradições. Porém não acho que seja uma medida correta.

Em primeiro lugar, nem todas as pessoas têm smartphones, ou internet disponível. Entre aquelas que têm, nem todas sabe utilizá-los em especial pessoas de idade e crianças (um público importante para o Museu tendo em vista as campanhas que este costuma realizar, como a Colônia de Férias).

Em segundo lugar, já é difícil conseguirmos que as pessoas larguem seus celulares por alguns instantes, seja no almoço, na janta, no simples convívio diário. Precisamos mesmo, no Museu, um dos poucos lugares onde ainda podemos nos concentrar naquilo que está ao nosso redor imediato, darmos mais uma chance para que olhemos quantas mensagens novas no aplicativo, quantos likes ou matches recebemos? A cada obra?

Por último, porque sinto mesmo falta das “plaquinhas”.

 

REFERÊNCIAS:

[1] MIRANDA, L. Biografia. Laura Miranda, 2018. Acesso em: Jan 2018.

[2] MIRANDA, L. Laura Miranda e Mônica Infante. Laura Miranda, 2006. Acesso em: Jan 2018.

[3] MUSEU OSCAR NIEMEYER. Nomos – Laura Miranda. Museu Oscar Niemeyer, 2018. Acesso em: Jan 2018.

[4] FREITAS, A. Textos: Vestir o Mundo. Laura Miranda. Acesso em: Jan 2018.