Cia Senhas despediu-se da São Francisco


Conversa com Mayra Fernandes

Como fazedora e apreciadora de teatro na cidade de Curitiba, acompanho a trajetória da Cia Senhas há muito tempo. Fim de semana que passou o grupo teatral despediu-se com muita arte da sede que ocupava há 10 anos. Passei por lá no final do evento e o clima estava intenso e bonito. Conversei brevemente com pessoas da Cia e muito amor está envolvido entre eles e pelo teatro. Pedi que me relatassem brevemente essa sensação do “tchau” dado e abaixo vocês terão o prazer de ler um texto do Luiz Bertazzo falando sobre esse desfecho. O texto também é um desabafo e grito pela nossa arte e cultura.

“Uma companhia movida por inquietações estéticas, ideológicas e sociais e que acredita no Teatro como exercício do ser humano.”

 

São Francisco deu pra nóix

Luiz Bertazzo

A Cia Senhas de teatro encerra esse mês suas atividades na sede localizada na Rua São Francisco no. 35. De lá pra cá foram dez anos em uma das ruas mais camaleônicas da cidade. Quando cá chegamos ainda haviam nos paralelepípedos as argolas de amarrar cavalos, carros estacionavam e entre os carros um fumante de Crack fumava tranquilamente seu cachimbo. Aos poucos a rua foi nos invadindo de experiências, pesquisar a São Francisco era urgente e nesse contexto o espetáculo Homem Piano se propôs a convidar o público transeunte a adentrar no espaço de três andares para compartilhar memórias. Nesse ponto a escola de ensino supletivo em frente à sede foi primordial na provocação entre alunos e artistas, os alunos queriam saber quem era o maluco que andava nas ruas implorando por memórias alheias e o maluco queria saber quem eram os doidos que ali existiam, não demorou muito pra que os doidos lotassem as sessões da peça do maluco. Depois vieram As Rameirinhas, peça de palco, feita no teatro Novelas Curitibanas mas que inevitavelmente se inspirava nas mulheres que se debruçavam nos balcões sujos dos botecos do cruzamento da São Francisco com a Riachuelo. 

Os alunos foram assistir, dessa vez como matéria de classe, graças a uma professora muito da bacana. Um dia acordamos e em frente a nossa sede já não havia mais a calçada centenária lamentamos… Mas no ano seguinte a esquina foi tomada por um projeto muito bonito da Praça de Bolso do Ciclista, a coisa foi se transformando e quando nos demos conta a Rua São Francisco estava cheia de bares e clientes, e samba, e rock ,e festas, e reclamações dos vizinhos, e não parou por aí… Nesse novo momento trouxemos em duas edições a intervenção GILDA Convida, dessa vez a rua não era apenas um estudo, era nossa finalidade, nosso fetiche mais profundo, de levar shows e arte da porta pra fora, vários artistas da cidade embarcaram na ideia e as duas edições ficaram marcadas pra sempre no coração de quem viu e viveu… E nós vivemos, e sobrevivemos à tudo isso. Com os bares, veio também as diferenças de classe, a molecada da escola que está há anos ocupando o espaço se sentiu excluída da gentrificação que a rua parecia ter seguido. Era tudo muito novo para a juventude curitibana pouco acostumada a ocupar a rua, a exercer esse espaço democrático, soma-se a isso o conflito com a polícia x tráfico que só intensificava, não foram raras as vezes em que chegamos para ensaiar e tínhamos que pedir licença para entrar no espaço enquanto na frente dele havia uma batida policial. Essa agitação, a iminência de um movimento de repressão que sai do armário pra tomar conta da rua, do país, das redes sociais… foi matéria prima para a criação dos Pálidos, espetáculo da porta para dentro em que os personagens todo momento sabem que há algo de perturbador acontecendo lá fora e por isso evitam sair.  A rua não deu conta, um dia no meio de um espetáculo ouvimos um tiro, seguimos com a apresentação e quando saímos, na esquina, havia um corpo estirado no chão, tal qual a mãe da peça que fazíamos. Os bares foram fechando e nós ainda por esse ano resistindo…

Acontece que a cultura tem sofrido um desmonte horroroso após o impeachment da Dilma, a Funarte foi enterrada (a mesma que havia subsidiado o Homem Piano), na gestão estadual os cortes foram drásticos, o edital do Novelas Curitibanas foi brutalmente esquartejado (o mesmo das Rameirinhas e Pálidos) e assim seguimos aos trancos e barrancos. Nesse ano entendemos que apesar do carinho e da história de uma década a Rua São Francisco deu pra nós, a rua voltou ao deserto e abandono que era quando chegamos, nós vimos isso tudo acontecer e fizemos o que podíamos para resistir, se divertir e sobreviver, agora decidimos que está na hora de arejar, mudar o cenário, procurar outros ares, nos recapitalizar dentro do possível para continuarmos unidos, atentos e fortes. Não sem dor, entregamos nosso espaço que tanto bem nos fez, uma decisão difícil e adiada muitas vezes e que agora se concretiza, mas de uma maneira bonita recebemos de nossa irmandade artística de Curitiba o apoio para seguirmos em frente e assim seguimos, agradecidos, fortalecidos e cada vez mais JUNTOS…

De Luiz Bertazzo